(A partir do caderno de notas de N. Perrette, pp. 94-98)
Sente-se.
Cuidado- a cadela morde.
Por favor, aceite um vinho, faça-se confortável. Será uma noite longa. Você procura uma história, e eu tenho uma para oferecer.
(Ah, la Romanée. Três mil garrafas por ano, vindas de dois acres de alguma região da França pequena demais para se encontrar num mapa. O sabor das coisas se perde um tanto com o tempo, mas o gosto da exclusividade nunca parece esmaecer.)
Voltemos ao assunto, no entanto. O que procura? O que ainda não foi assunto das fofocas e das revistas, hmm? O que lhe renderia um espaço ao sol neste terrível mundo editorial?
Sobre a minha infância, você diz?
Veja, eu mantenho algum mistério por um motivo. Este mundo - este universo sob os holofotes, esta existência de festas e fotos e entrevistas, este constante escrutínio - deixa as pessoas muito claras. Muito límpidas e transparentes. Muito... chatas.
O tempero do interesse é o mistério - aquilo que você não sabe é o que o motiva a explorar.
Mas seria rude de minha parte não lhe dar algo, certo? Vamos à infância, então. Ah, é um assunto que nunca se esgota, esse interesse em saber de onde as pessoas vêm.
Para desfazer o mistério e para sua decepção, venho dos pântanos de Port Fourchon. É um lugar feio, sujo. Pobre.
Você sabe como é ser pobre, monsieur? Ou sempre usufruiu dos bens de sua família, que o enviaram à universidade, que pagaram por seu curso de jornalismo, por roupas e casa e empregados? Suas mãos não conhecem a pobreza. O pequeno brasão em sua lapela também não.
Não está perdendo nada, se quer saber.
A pobreza tem um cheiro, um ranço específico. Ele se prende às suas roupas, aos seus cabelos, à sua pele, por mais que você tente se manter limpo com a pouca água que tem disponível, com o sabão que sua mãe ganha em troca da faxina extra uma semana ou outra.
Ela habita no seu barraco nos subúrbios à beira dos pântanos. Dorme com você na sua cama dura, trapos arrumados sobre tábuas, abraçando seu corpo marcado enquanto você ouve gritos do lado de fora do quarto que você divide com sua mãe.
Ela se infiltra nos corpos como doença, apodrecendo os pulmões, curvando as costas, arrancando o prazer da comida e da bebida, até que sua vontade de viver se transforma em resignação e suicídio.
Ela leva seus entes queridos para longe e o deixa só.
Aos dez anos, Terrence era um menino só.
Poor, poor Terry had no one to chase away his bogeymen.
Poor, poor Terry had to struggle to survive.
Não é fácil sobreviver quando não se tem ninguém. Você tem fome e nada tem para comer. Você tem frio, mas as roupas já caíram do seu corpo. Que dizer então da solidão, da tristeza, do desespero. É uma vida violenta, que lhe agride corpo e espírito incessantemente. Quem quer que tenha dito que a lei da selva moderna é a vida nas ruas estava certo. Restam de pé apenas os mais fortes.
Tem de se dizer, no entanto, que a lei da selva se torna muito mais suave quando você encontra alguém disposto a lhe dar uma casa.
O sistema de adoção da Louisiana não é tão ruim assim.
Aos onze anos, para grande decepção do leitor que comprou esta revista para ler sobre os dramas infantis de um designer famoso, Terrence não era mais um menino só.
Sim, você talvez queira editar isso.